Al Borde . Mocha, Equador

por Mariana Siqueira

 

 


Em vez de formas, estratégias construtivas. Partindo desse conceito, arquitetos do Al Borde reformulam estábulo para receber uma residência, apostando na reciclagem de materiais e na criatividade arquitetônica

Um homem decide voltar a viver onde cresceu, um sítio nas imediações de Mocha, cidadezinha dos Andes equatorianos. Da partilha feita entre os herdeiros, coube a ele a porção de terra onde ficava o estábulo para vacas. Convencido da necessidade de demolir a construção para dar lugar a uma casa, convidou os arquitetos do Al Borde, oficina sediada em Quito, para desenvolver o projeto. Não suspeitava que acabaria por viver no próprio estábulo, restaurado. Tampouco que seu novo lar seria objeto de premiações nacionais e internacionais em categorias de reabilitação e reciclagem.

“A nós, arquitetos, pareceu absurdo não aproveitar os recursos existentes”, lembra-se Pascual Gangotena, um dos arquitetos responsáveis pela intervenção. Ainda que abandonado, sujo e torto, o estábulo cumpria a função primordial de se manter de pé. As limitações impostas pelo espaço construído, somadas à pressa que o cliente tinha em mudar-se e ao baixo orçamento para a obra, definiram a pergunta que nortearia todo o processo: como restaurar o edifício da maneira mais prática, simples e direta possível?

Era fundamental proteger o espaço interior da umidade circundante, que entrava principalmente pelo telhado e pelo piso. “O projeto é a cobertura”, resume Pascual. Como a estrutura de madeira do telhado estava “quase boa”, optou-se por não remover nenhuma de suas peças, mas por fortalecê-la com a adição de elementos verticais onde era necessário. Além disso, foi expandida 1,5 m para além dos limites das fachadas, de maneira a cobrir melhor as paredes de tijolos à vista. As telhas existentes foram retiradas e separadas em dois montes: telhas boas e telhas ruins. As boas – ou, novamente, “quase boas” – foram utilizadas no fechamento das novas áreas da cobertura, externas ao edifício, onde certa permeabilidade ainda era aceitável. Mas, para o interior, era necessário definir uma nova técnica, que garantisse total isolamento contra a água.

A subestrutura do telhado original tinha o espaçamento perfeito para receber um sanduíche para impermeabilização, composto por malha metálica, camada de concreto e manta asfáltica. A plasticidade do material proporcionaria uma vedação total se não fossem pelas cumeeiras, por onde a água poderia se infiltrar. A solução para essa questão construtiva se inscreveu em uma estratégia muito mais ampla para o edifício. Estando em uma zona fria, a 3.300 m acima do nível do mar, era necessário trazer calor e luz para o interior da casa. Para isso, foram utilizadas placas translúcidas de policarbonato no topo da cobertura, que possibilitaram abundante iluminação zenital. Essas placas, flexíveis, foram dobradas sobre a manta asfáltica, resolvendo, então, a questão da vedação da cobertura.

Se o telhado estava resolvido, faltava afastar a umidade que entrava pelo chão. “Era necessário levantar todo o piso da casa ou fazer uma vala a seu redor que, na prática, corresponde a baixar o nível do solo exterior”, explica o arquiteto Esteban Benavides, integrante do escritório. A segunda opção era a mais simples: cavou-se um duto perimetral de cerca de 40 cm de largura por 80 cm de altura, que foi preenchido por pedras e por cacos das “telhas más” retiradas do telhado. Finalmente, um tubo coletor, perfurado em sua porção superior, conduz a água para longe da casa.

Para o piso de todos os cômodos, um só material foi utilizado: o ladrilho hidráulico. Além de isolante, é uma solução versátil, durável e barata, e tem um bom aspecto estando o piso limpo ou sujo, condições alternantes no meio rural.

Nesse sentido também foi pensada a pintura. Se a princípio cogitou-se o uso do branco, logo se viu que seria impossível manter a pureza dessa cor no sítio. Os arquitetos empenharam- se, então, em fazer provas pisoteando mostras de pintura branca até atingir uma cor que não se ressentisse do pó e da terra em circulação. Assim, encontraram a tonalidade que batizaram de “cor mancha” para pintar todo o interior da casa.

Como as paredes existentes não alcançavam a cobertura, garantiu-se a privacidade dos quartos prolongando- as com painéis de tábuas de madeira pregadas diretamente na estrutura do telhado. As portas e peças sanitárias utilizadas foram reaproveitadas de antigas construções. A diferença de aspecto entre elas não incomodou os arquitetos, e as peças cumpriam sua função.

Finalmente, foi necessário fazer, do zero, toda a parte elétrica e hidráulica. Mais uma vez, apostou-se na simplicidade máxima. Todos os dutos estão à vista, “tal como na arquitetura popular informal feita em toda América Latina”, compara Esteban.

Para os arquitetos, a casa é composta por dois mundos: o interior, que foi necessário adequar para tornar habitável, e o exterior, que esteve pronto desde o começo: do lado de fora, nada foi feito.

O projeto foi desenvolvido de maneira mais verbal que gráfica. “Não havia um projeto acabado, e sim ideias de lógicas construtivas”, explica Esteban. Croquis ajudavam a pensar e a comunicar ideias, mas desenhos técnicos e visualizações tridimensionais tiveram papel reduzido no processo. Ao mestre de obras, foi conferida autonomia relativamente alta na tomada de decisões.

“Não desenhamos formas, e sim estratégias construtivas”, provocam os arquitetos. “A estética é um resultado das soluções para os problemas”, concluem.

 

Fonte:

http://www.revistaau.com.br/arquitetura-urbanismo/227/casa-no-estabulo-al-borde-mocha-equador-277519-1.asp