Artigo original: Portal da Sustentabilidade | Empresa cria escova de dentes descartável

Uma escova de dentes que já vem com pasta de dentes e, o mais importante: não utiliza água. Legal?

Essa é a Bresh, da KPK. Escova que, além de tudo, é 100% biodegradável e reciclável. A escova ainda usa um flúor (Xylintol) que é usado para substituir açúcar em gomas de mascar e aromantes.

Quando você aperta a tampa da escova, a pasta que contém o Xylintol, vai direto para as cerdas e isso faz o gosto ficar doce.

A KPK diz que “Ao eliminar a necessidade de água, os nossos produtos economizam milhões de litros de água por ano” e eles querem ajudar a salvar a água do planeta.

Ok, economizar a água é legal. Mas, com todo o processo de produção e logística da escova, o modelo continua valendo a pena? Sabemos que é degradável e reciclável, porém isso não é tudo. Pense que a empresa vai precisar produzir mais e ter mais caminhões para entregar as cargas. Complicado.

Uma breve reflexão:

Este é um ótimo exemplo para refeltirmos até que ponto as propostas que o mercado nos oferece como alternativas sustentáveis são ou não, de fato, sustentáveis.

Como o final do texto incita, demos ponderar, sempre, se os benefícios que um novo produto oferece são menos impactantes de maneira geral, que o modelo tradicional. Neste caso, o apelo da escova descartável é economizar água, mas como bem descreveu o artigo, paralelamente a isso está toda uma problemática de logística e produção industrial envolvida. É a questão da “pegada ecológica”, que, neste caso, seria maior do que uma escova durável utilizando-se de água causaria. Bem sabemos que fechado-se a torneira durante a escovação o consumo de água é mínimo.

Este tipo de reflexão devemos fazer para todas as outras atitudes com as quais nos deparamos diariamente, como na compra de novos produtos e contratações de serviços.

Por exemplo: um refrigerador novo que tem um consumo menor de energia elétrica mas terá sua durabilidade igualmente reduzida é ecologicamente mais correto do que um antigo que consome mais, mas dura décadas? Quais fatores estão envolvidos na fabricação deste novo produto?

Durante o próprio processo de produção há um grande consumo de energia, água, emissão de gases poluentes, depois existe a questão da logística de entrega deste produto, que se for importado pesará ainda mais. Se o novo refrigerador tiver sua vida útil muito reduzida, em poucos anos este processo todo de produção e logística deverá ser repetido, aumentando-se os impactos ambientais e consumo de recursos naturais que o antigo modelo, mesmo consumindo mais energia, demandaria. E o mesmo raciocínio vale para TV’s, automóveis, telefones celulares e toda uma gama de produtos idustrializados que, como sabemos, fazem parte da chamada “obsolescência programada”.

O maior apelo deste tipo de pensamento é que, diminuindo-se a vida útil dos aparelhos e, consequentemente, encurtando-se o ciclo “concepção-criação-consumo-descarte”, a sociedade é beneficiada com a oferta constante de empregos nas áreas envolvidas para a produção: desde os designers até os operários e motoristas de caminhão.

É o delicado equilíbrio entre esses fatores que devemos analisar para fazermos nossas escolhas conscientemente.

Paulo Trigo