Artigo original: Engenharia e Arquitetura | Zona recuperada em Lyon vibra com Orange Cube

Localizado em uma antiga zona de docas, o novo edifício comercial é revestido com uma tela de alumínio inspirada no movimento da água

Localizado em uma antiga zona de docas, o novo edifício comercial é revestido com uma tela de alumínio inspirada no movimento da água

Desde o início das atividades do seu escritório em Paris, em 1992, Dominique Jakob e Brendan MacFarlane produzem uma série de projetos exuberantes que estariam bem colocados em qualquer filme de ficção científica. Em seu primeiro projeto importante, o Restaurante Georges, eles inseriram quatro grandes gotas revestidas de alumínio em um espaço livre no Centro Pompidou.  Anos depois, para o seu projeto das Docas de Paris, eles revestiram com tubos de vidro verde um antigo galpão transformado em centro de moda às margens do Sena. O emprego de ferramentas digitais de projeto para manipular formas e materiais tornou-se uma assinatura do escritório, que conta com 19 empregados.

Com o Orange Cube, Jakob + MacFarlane demonstram, mais uma vez, seu gosto por salientar o envelope. Concluído no segundo semestre de 2010, o edifício de 20.600 metros quadrados, que contém um showroom de mobílias no andar térreo e escritórios nos andares superiores, esta implantado  às margens de um rio em uma antiga zona industrial em recuperação em Lyon, França. Rodeado majoritariamente por estruturas cinzas, a moderna caixa de seis andares, com suas profundas reentrâncias cônicas e um pulsante véu cor de laranja, enche de vida o entorno.

Uma armação de concreto sustenta a borda de 13 metros de largura de um vazio cônico, que fica na face oeste. Os balcões voltam-se para fora, em direção ao Rio Saôneestido com uma tela de alumínio inspirada no movimento da água

Uma armação de concreto sustenta a borda de 13 metros de largura de um vazio cônico, que fica na face oeste. Os balcões voltam-se para fora, em direção ao Rio Saône

É uma obra arquitetônica ousada para qualquer cidade, e particularmente tratando-se de Lyon. Tendo sido um dos centros industriais mais progressivos no século dezenove, e terra do visionário urbanista Tony Garnier, Lyon ficou paralisada nas últimas décadas. A cidade, contudo, tomou várias providências para retomar seu caráter cosmopolita. Nos anos 1990 abriu a Cité Internationale, um empreendimento de uso misto de 37 acres projetado por Renzo Piano. Mais recentemente, procurou recuperar o decadente distrito portuário dominado por velhos armazéns. E é no novo distrito de Confluência de Lyon — assim denominado por ocupar a ponta de uma península onde se encontram os rios Saône e Rhône — que o Orange Cube aviva a paisagem.

O Distrito de Confluência de Lyon, de uso misto, abrangerá 370 acres, caracterizado por edifícios novos e recuperados. O vazio curvado na esquina sudoeste mais baixa do Orange Cube responde ao telhado arcado de uma estrutura vizinha, um armazém dos anos 1920 convertido em restaurante

O Distrito de Confluência de Lyon, de uso misto, abrangerá 370 acres, caracterizado por edifícios novos e recuperados. O vazio curvado na esquina sudoeste mais baixa do Orange Cube responde ao telhado arcado de uma estrutura vizinha, um armazém dos anos 1920 convertido em restaurante

Projetado para abranger 370 acres, o desenvolvimento do Confluência dobrará o tamanho do núcleo urbano de Lyon. O master plan original, desenvolvido pelo arquiteto François Grether e pelo paisagista Michel Desvigne, prevê um misto de espaços comerciais, residenciais e culturais, projetados por uma lista de arquitetos internacionais, incluindo um museu pela Coop Himmelb (l) au. O empreendimento público e privado lembra o HafenCity, em Hamburgo, onde uma área portuária com 390 acres está sendo transformado em um planejado distrito com edifícios projetados por luminares da arquitetura.

Há uma fenda de 10 polegadas entre a tela metálica perfurada do cubo e a cortina da parede interior

Há uma fenda de 10 polegadas entre a tela metálica perfurada do cubo e a cortina da parede interior

Em janeiro de 2006, Jakob + MacFarlane ganharam a concorrência para projetar o edifício que se tornaria o Orange Cube. Naquele momento não estava definido seu uso; o brief simplesmente pedia uma estrutura atraente em um sítio de meio-acre. “A idéia foi ter uma competição que incentivasse edifícios icônicos e trouxesse uma arquitetura interessante, conseguindo alguém que pagasse por isso,” explica MacFarlane. Os dois primeiros andares do edifício teriam que acomodar a programação cultural, enquanto os níveis superiores alojariam escritórios. O brief também estipulou que o envelope de edifício não ocupasse totalmente o sítio para que ele ficasse com um montante de espaço negativo.

A última exigência inspirou os arquitetos a criarem uma caixa perfurada por três grandes vazios orientados em direção à água. “A solução mais óbvia, do nosso ponto de vista, foi tomar o espaço negativo e tratá-lo como um recorte no projeto total,” diz MacFarlane.

A cor corajosa do edifício foi inspirada pelo passado do sítio: a pintura cor de laranja muitas vezes usada para designar segurança em zonas industriais

A cor corajosa do edifício foi inspirada pelo passado do sítio: a pintura cor de laranja muitas vezes usada para designar segurança em zonas industriais

Apoiado por uma estrutura de concreto armado, o cubo contém dois vazios cônicos: um cai a partir do telhado, o outro angula a partir do rio, e ambos convergem para o centro do edifício, criando um átrio de quatro andares. Um linha de balcões de cerca de 13 metros de largura abre-se para a face oeste, fornecendo uma repousante área. Este vazio cria “um diálogo extraordinário com o rio, quase trazendo-o para o interior,” diz MacFarlane. Além disso, ele conduz a luz natural e canaliza o ar quente para uma abertura no telhado, reduzindo o consumo de energia.

Anelado por bandas de painéis de alumínio, o vazio que fica na face oeste corta profundamente o cubo; esta abertura elíptica não só fornece visões notáveis, mas traz a luz do dia para o interior e canaliza o ar quente para uma abertura de telhado, reduzindo o consumo de energia

Anelado por bandas de painéis de alumínio, o vazio que fica na face oeste corta profundamente o cubo; esta abertura elíptica não só fornece visões notáveis, mas traz a luz do dia para o interior e canaliza o ar quente para uma abertura de telhado, reduzindo o consumo de energia

Um terceiro vazio, localizado na esquina sudoeste mais baixa do cubo, conecta-se a um passeio e junta-se à estrutura vizinha: um antigo depósito de sal, agora restaurante, construído nos anos 1920. A curvatura do vazio combina elegantemente com o telhado arcado e ondulante do restaurante.

O ar quente escapa por uma abertura do telhado com 10 metros de largura

O ar quente escapa por uma abertura do telhado com 10 metros de largura

O envelope do edifício, vibrante e de alto desempenho, constitui outra característica notável. Os arquitetos envolveram toda a fachada com uma tela perfurada de alumínio cujo modelo é baseado no movimento da água. A cor refere-se ao passado do sítio (a pintura cor de laranja é muitas vezes usada em zonas industriais por motivos de segurança). “Nosso papel deveria ser o de energizar uma área abandonada e deprimida da cidade. A cor deu-nos uma possibilidade de fazer isto,” diz MacFarlane. Estética à parte, o telado reduz o ganho de calor, enquanto as sombras externas na cortina interna da parede permitem a proteção solar adicional.

Um  showroom de mobília com cerca de 3.000 metros ocupa o térreo e o mezanino

Um showroom de mobília com cerca de 3.000 metros ocupa o térreo e o mezanino

Considerando todo o deslumbramento do exterior, as instalações interiores demonstram mais restrição. O locatário do nível térreo, a RBC Mobilier, contratou a Jakob + MacFarlane para projetar o seu showroom de mobílias. Para este espaço, parecido a um sótão, os arquitetos conceberam uma parede de exposição com desenhos recortados que remetem à tela exterior. Eles também ajudaram a projetar os escritórios dos níveis superiores, que apresentam piso de concreto e mobília contemporânea. Entre os locatários estão um escritório de advocacia, uma companhia de comunicação online, um fabricante de luminárias, e a imobiliária Cardinal Group, que desenvolveu o edifício e, agora, compartilha a propriedade com duas entidades públicas.

Os buracos menores nas brises foram projetados para fora, enquanto os maiores foram milimetricamente cortados com raio laser

Os buracos menores nas brises foram projetados para fora, enquanto os maiores foram milimetricamente cortados com raio laser

Não há dúvida que o Orange Cube acrescenta considerável entusiasmo ao Distrito de Confluência. Logo, ele terá alguma concorrência amistosa: a sede de cerca de 32.000 metros quadrados da Euronews, outro projeto do Jakob + MacFarlane. Como fizeram com Orange Cube, os arquitetos pretendem perfurar o edifício retilíneo com dois gigantescos buracos mas, desta vez, pintado na cor verde brilhante. A construção esta programada para começar em 2012.

Fotos: Roland Halbe

Jakob + MacFarlane