Sustentabilidade chega a condomínios residenciais
Artigo original: Engenharia e Arquitetura | Sustentabilidade chega a condomínios residenciais
Condomínio NEO Next Generation, em Florianópolis
Brasil – A moda sustentável chegou aos condomínios residenciais, não apenas pelo apelo mercadológico, mas também por seus benefícios ambientais e financeiros. O cenário ainda começa a se formar no Brasil, mas a tendência é que a atenção se volte cada vez mais para a sustentabilidade no setor, tanto para benefício dos construtores de condomínios residenciais quanto para seus moradores. A gestão energética também tem sido levada em conta, principalmente pelos condomínios já existentes, que não possuem atributos verdes, mas desejam reduzir custos.
Com sua proposta funcional, o condomínio NEO Next Generation é um exemplo do avanço da sustentabilidade no setor. O empreendimento, idealizado pelo arquiteto Jacques Suchodolski, reúne características inovadoras que visam imprimir o menor impacto ambiental possível sobre o bairro Novo Campeche, na costa leste da ilha de Santa Catarina, onde está localizado. E o planejamento sustentável do condomínio tem sido reconhecido. Logo no início das obras, o empreendimento recebeu sua certificação ambiental. “Já ganhamos o selo de carbono zero, porque a obra replantou parte do Parque do Côrrego Grande com árvores nativas. Conquistamos o selo nos primeiros dois meses de obras”, comemora.
O condomínio alia sofisticação arquitetônica com o aproveitamento dos ventos e dos raios do sol para gerar energia limpa e renovável. De acordo com Suchodolski, o condomínio apresenta diversas características verdes. Entre elas, o abastecimento próprio de energia através das fontes alternativas. “Cem por cento da energia necessária para aquecer a água de uso do condomínio provêm de fontes alternativas – solar e eólica”, conta. E o melhor é a expectativa de que os apartamentos não custem mais para o comprador do imóvel. “Eu brigo pelo mesmo preço por metro quadrado. A incorporação está apostando, por filosofia, em entender que os custos que estamos investindo compensarão”, diz, otimista. Suchodolski explica que “como mercado de classe média, a questão da sustentabilidade já entra como um item muito importante na hora da escolha. No final, o que vai decidir é o preço e as condições de pagamento”.
A principal vantagem das medidas sustentáveis tem sido a economia resultante em água e energia. O arquiteto garante que, com a aplicação de todas as ações projetadas, os custos com energia poderão ser reduzidos pela metade em relação a condomínios convencionais, tanto para a administração quanto para os moradores. “Nós concluímos uma curva anual de demanda que indica que estamos utilizando apenas 10% da capacidade nominal dos aerogeradores. Se estamos fornecendo 100% da energia necessária média anual para aquecer a água, estamos economizando, estatisticamente falando, pelo menos 50% da energia necessária, nessa latitude, para a demanda dessa categoria de domicílios”, explica. Suchodolski explica, no entanto, que essa economia pode ser ainda maior, porque a energia é gerada a mais, e pode ser utilizada para outras funções. “Nós temos excesso [de produção de energia], podendo fazer outras coisas, inclusive. Na verdade, vamos muito provavelmente chegar a mais de 50% [de economia de energia], mas eu garanto 50%”, pondera.
Essa economia de energia conta com a contribuição de medidas de eficiência energética, como o tratamento das fachadas e esquadrias do prédio, para minimizar o uso de ar condicionado ou aquecimento, e o uso de lâmpadas econômicas. Neste contexto, toda a iluminação do condomínio é composta por diodos emissores de luz, conhecidos como LEDs. “Cada vez mais, fica disponível no mercado o sistema por LEDs. A cor de luz está ficando mais agradável e as lâmpadas cada vez mais acessíveis”, destaca. Suchodolski calcula que “esse tipo de lâmpada consome de 20% a 25% da energia usada por um bulbo incandescente”. “A economia é tremenda”, afirma.
A redução dos custos é notada também em relação à água, que é reutilizada para descarga das bacias sanitárias, irrigação e lavagem dos pisos. “A gente não somente coleta água de chuva, mas todo o esgoto é tratado a um ponto que é perfeitamente sanitizado e bom para esse tipo de uso. Por isso, estimamos também uma economia de pelo menos 50% em água”, garante. O condomínio aplica, ainda no processo de obras, outras medidas de sustentabilidade. “Durante as obras, os funcionários utilizam uma estação portátil de tratamento de esgoto para não poluir o subsolo. Nós utilizamos apenas tintas e vernizes à base d´água. Toda a madeira é certificada. É uma série de fatores. É bastante coisa”, enumera.
Ao analisar um caso específico, como o do NEO Next Generation, a impressão é de que o mercado caminha acelerado rumo à sustentabilidade. Mas não é bem assim. “[O mercado] está uma fraqueza, engatinhando”, comentou Suchodolski. A opinião é compartilhada pelo diretor da empresa de serviços energéticos Esco Energy, Adalberto Carvalho Rezende. A demanda por serviços visando à redução de consumo de energia, para ele, caminha “ainda em ritmo modesto”. Segundo ele, “as administrações condominiais carecem de mais estruturação de gestão”. “A demanda deve aumentar quando também tiver leitura individual de consumo de água”, diz.
Muitos empreendimentos vendidos como sustentáveis na verdade apresentam apenas características verdes superficiais, segundo Suchodolski. “A maior parte da indústria imobiliária se utiliza do que se chama de ‘green wash’. Dão um ‘tapinha’ para poder colocar na propaganda que é sustentável. Não tem um cuidado. Requer que os incorporadores exijam isso de seus projetistas”, opina.
No ambiente dos empreendimentos já existentes, a preocupação ambiental é ainda menos priorizada. Segundo o sócio proprietário da Lima Soluções, Luiz Antonio Pessanha de Lima, a questão ambiental vem em segundo plano. O executivo afirma que sua empresa, também especializada em serviços energéticos, nunca recebeu proposta de condomínio preocupado com seu impacto ambiental. “Não existe preocupação ambiental. Só se preocupam os condomínios em que a energia representa um valor significativo no orçamento”, revela. “Quando conseguem alternativas que reduzem custos com energia elétrica, com baixo investimento em tecnologia, e tem um impacto positivo para o meio ambiente, é um ponto ideal. Mas nem sempre isso é alcançado”, observa. “A preocupação com a eficiência energética vem exatamente em função da redução de custo”, ratifica.
Os benefícios ambientais, no entanto, são claros. O diretor da Esco Energy considera que “à medida que se racionaliza o uso dos insumos, há menos demanda por geração dos mesmos e, assim, preserva-se a fonte de produção. Vale lembrar que cada quilowatt-hora (kWh) de energia ou metro cúbico de água não utilizados hoje servem para atender à necessidade de amanhã”, destacou Rezende.
Um dos principais trabalhos executados pela Lima Soluções é o de sugestões de medidas de gestão de energia através de contratos de performance. Em alguns casos, segundo Pessanha de Lima, a empresa é remunerada com as economias geradas através das medidas implementadas nos condomínios. “É um contrato de risco”, afirma o executivo. Por isso, a companhia opta por empreendimentos onde a garantia de retorno seja maior, ou seja, em condomínios onde a fatura de energia gire em torno de R$ 7 mil. “Esse valor é estabelecido para que interesse ao próprio condomínio e também para poder compensar o custo da prestação do serviço”, explica.
A economia, no entanto, vale a pena para os que resolvem apostar na gestão do consumo. De acordo com Rezende, a economia média é de 20% na conta de energia e de 30% na conta de água. Pessanha de Lima vai além. “Nós já alcançamos economia de 45% em indústrias. Em condomínios também temos um caso, que é o condomínio residencial fechado Estâncias das Amendoeiras, em Lagoa Santa, cidade vizinha de Belo Horizonte (MG). O principal ganho, nesse caso, foi relacionado à adequação tarifária. Ou seja, é um ganho de baixo custo e grande retorno, porque demanda conhecimento, e não investimento”, diz.
As soluções de gestão da energia nos condomínios para redução do consumo variam. “Nosso trabalho se resume a analisar desde a conta de energia do consumidor, no caso de médio a grande, até o conhecimento da curva de carga instalada, para depois analisar as alternativas”, diz Pessanha de Lima. Antes de chegar à conclusão das melhores soluções a serem oferecidas, a Lima Soluções avalia tudo o que envolve o consumo dentro do condomínio. “O trabalho é feito através de uma análise geral, desde o contrato de energia com a concessionária – a forma como o condomínio contrata a energia -, analisando também quantos medidores e contas de energia de pessoas jurídicas têm no condomínio”, explica o proprietário. “Fazemos uma medição para conhecer a curva de carga do condomínio e em cima disso procurar a tarifa mais adequada para aquele perfil”, salienta.
De acordo com Pessanha de Lima, o consumo de condomínios se resume em três pontos básicos: iluminação, elevador e bombeamento de água. Analisando essas três cargas, que representam maior consumo para o condomínio, a companhia conclui qual delas precisa de maior atenção. “Vai depender de qual é a carga que representa maior consumo para o cliente. Às vezes, um condomínio pode apresentar um sistema de bombeamento de água que pese mais do que a iluminação”, destaca.
O executivo explica, no entanto, que primeiramente se busca a redução do consumo através da adequação tarifária. “No popular, a “gordura” está na forma como o condomínio contrata a energia”, garantiu. “Estou falando de gerenciamento de energia, que seria procurar uma modalidade tarifária mais adequada a cada cliente ou fazer com que o condomínio mude seu comportamento para que se encaixe em uma tarifa que será econômica”, ressalta. Rezende, por outro lado, acredita que a maior abordagem se dá nas áreas comuns, onde a conta fica na gestão do síndico. “Sensores de presença, automação, iluminação eficiente, substituição de bombas e automação de descargas e mictórios são as práticas adotadas”, listou.
A gestão da energia é priorizada pela Lima Soluções por ser a área que exige maior análise e resultado. “É uma análise criteriosa. Não existe uma dica. Se não fosse assim, não alcançaríamos a excelência do trabalho. As soluções genéricas já são conhecidas”, diz Pessanha de Lima. “A parte da iluminação hoje em dia não tem muito como ser enxugada, porque as lâmpadas eficientes compactas já são utilizadas desde o racionamento. O que acontece muitas vezes é de o ambiente não estar com a iluminância adequada”, compara.
Segundo Pessanha de Lima, a troca de lâmpadas apenas não resolve o problema. “É feita simplesmente uma troca de lâmpadas, sem fazer uma análise da iluminância, o que pode reduzir ou aumentar a iluminância do ambiente, saindo da faixa adequada estabelecida pela norma da ABNT’, analisa. “Algumas vezes é necessário fazer algum tipo de alteração na forma do uso da energia, reduzindo o consumo nos horários em que a energia é mais cara e aproveitando os horários em que a rede de distribuição está mais aliviada para utilizá-la”, acrescenta. “Isto é feito, muitas vezes, através de automação no bombeamento de água ou na iluminação, que permitem ser gerenciáveis”.
Com a melhor gestão da energia, o retorno é rápido, segundo o executivo. “É um trabalho que a partir de três meses já gera retorno, porque demora cerca de dois meses para encontrar o melhor tipo de tarifa”, garante. Já com as medidas sustentáveis ou de eficiência energética, a demora no resultado é maior. Isto faz com que o cliente não se anime a implementar as soluções, já que o retorno do investimento consequentemente também levará mais tempo. “São alternativas que, infelizmente, demandam investimentos e, muitas vezes, quanto mais nova a tecnologia mais alto é o investimento. Quando isto fica a cargo do próprio cliente escolher, ele opta por não fazer, por causa do retorno que é um pouco demorado”.
Contudo, como moda, a gestão da energia, as medidas de eficiência energética e as práticas sustentáveis se alastram aos poucos no mercado. Os resultados obtidos por um empreendimento influenciam outros pela abordagem verde. “Os resultados incentivam até os próprios moradores a terem mais atenção ao consumo de cada residência. Isso acaba até se multiplicando entre condomínios vizinhos”, concluiu Pessanha de Lima. “Quando um condomínio tem essa visão, a atitude se multiplica”.
Diego Luis, do Procel Info