TETO - Arquitetura Sustentável

Arquitetura da felicidade

Por Luis de Garrido
doutor em Arquitetura e Informática e mestre em Urbanismo, além de
presidente da Asociación Nacional para la Arquitectura Sostenible (ANAS), da
Espanha.

Em
http://www.anabbrasil.org/artigos.asp?id_art=27&action=v_art

…esse teste mostra a importância que os nossos pensamentos têm no nosso comportamento. Assim, pensamentos positivos fazem com que nós nos comportemos de uma forma que, como resultado, permita-nos ter mais êxitos na busca pelos nossos objetivos. Ou seja, nós podemos atrair aquilo que pensamos continuamente. Se pensarmos em felicidade, temos felicidade. Se
pensarmos em riqueza, obtemos riqueza. Se pensarmos em saúde, teremos saúde. Simples assim.
Mas eu sou um arquiteto, entre outras coisas, e, portanto, não posso evitar vincular qualquer experiência que tenho com Arquitetura. E ao relacionar “ley de la atracción” com a arquitetura, devo admitir que me senti extremamente preocupado. Mas, ao mesmo tempo, orgulhoso. Fiquei muito preocupado, pois me dei conta que a arquitetura comumente utilizada em nossas casas não estimula a adoção de pensamento positivos e alegria.
Pelo contrário, por várias razões muitas pessoas não se sentem confortáveis, saudáveis ou felizes nas casas que compram. Os seres humanos gastam uma média de 98% do tempo em ambientes fechados. Portanto, aquilo que sentimos e pensamos sobre estes espaços será o que condiciona nossos objetivos vitais. Neste sentido, a Arquitetura se torna uma caixa ressonante dos nossos pensamentos, desejos e emoções. Portanto, o tipo de habitação atual
(creio não ser necessário uma listagem das muitas deficiências e reclamações que todos fazem) não é o mais conveniente para promover nossos objetivos, incluindo a nossa saúde e felicidade. Quando compramos uma casa ou encomendamos a um arquiteto, normalmente, somos pouco exigentes. Realmente pouco. E o mais engraçado é que o que estamos comprando tornar-se-á a caixa de ressonância que nos permitirá alcançar objetivos, saúde e felicidade. Compramos como se fosse um negócio, e só olhamos para trivialidades de pouco valor (cor das portas, bancada da cozinha, tipo de solo etc). No entanto, não temos conhecimento das características que devem ter nossas casas e locais de trabalho, para que nos sintamos realmente bem, e assim gerar uma grande quantidade de pensamento positivo que nos levará a alcançar nossos objetivos acalentados. É evidente que, em apenas algumas linhas, não é possível enunciar e contrastar as funcionalidades que deve ter uma verdadeira “arquitetura da atração” (“arquitectura para la felicidad”). No entanto, me atrevo a apontar um conjunto de qualidades essenciais para isso. Poderíamos encontrar mais algumas, mas, sem dúvida, estas são indispensáveis:

1. Iluminação natural

Existe uma extensa literatura mostrando que um ambiente de iluminação natural produz muito mais bem-estar e saúde. Por isso, as casas devem ser concebidas de tal forma que a luz natural atinja todos os ambientes (sem exceções), enquanto haja luz solar, possa se desenvolver qualquer tipo de atividade em qualquer lugar da casa, sem necessidade de iluminação artificial.

2. Transpirabilidade (ventilação natural continuada)
Quando alguém examina todos os agentes patogênicos de uma casa (causadores da síndrome do edifício doente), percebe-se que um dos métodos mais eficazes para alcançar um maior bem-estar é a ventilação natural. Pois bem: a melhor maneira de obter uma ventilação natural contínua (sem perdas energéticas) é adotando paredes porosas. Tal como a nossa pele ou nossas roupas, os seres humanos devem transpirar pela pele dos seus lares para garantir saúde, bem-estar e felicidade. Por isso, todos os materiais empregados devem ser transpiráveis, permitindo a passagem do ar, mas não da água. Infelizmente, a grande maioria dos materiais normalmente utilizados nas paredes exteriores não é respirável (tinta plástica, isolamentos habituais, argamassas com resinas etc). Isso manifesta uma sensação de “afogamento”, que nos obriga a abrir janelas continuamente (com o consequente desperdício de energia e perda de bem-estar) ou simplesmente fugir de casa.

3. Simplicidade tecnológica
Após 20 anos de experiência profissional e de ter utilizado as mais altas tecnologias em casas, percebi que quanto mais dispositivos na casa, pior nos sentimos. E se os dispositivos tiverem necessidade de manutenção mais cedo
ou mais tarde eles quebram. Com isso, chegam alterações de caráter, instabilidade e perturbações nervosas. Ou seja: quanto mais simples, quanto menos tecnologia tiver um edifício, menor serão os problemas e melhor nos sentiremos. Os únicos dispositivos que tenho na minha casa são: uma geladeira, uma máquina de lavar roupa, um fogão (não tenho forno pois quando usado consome muita energia), um telefone, duas torneiras eletrônicas, computador e uma TV. Não tenho mais nada e nunca terei mais.

4. Alto nível de “naturalidade” nos materiais
Outra coisa que aprendi com a minha experiência é que todos os componentes de uma casa devem ter tido o mínimo de manipulação possível. Isto garante a melhor utilização dos recursos, diminuição da produção de resíduos e menor consumo energético. Mas, além disso, proporciona bem-estar. Um exemplo ajuda a explicar esta regra geral: é bem melhor utilizar tábuas de madeira serrada e embebidas em óleo vegetal que usar madeira com todos os tipos de tratamentos, proteções e vernizes. Este segundo tipo de madeira pode conter muitas substâncias tóxicas, não tem capacidade de auto-regulação da umidade e não cheira nem é percebida como madeira. Cada material tem sua particularidade, e essa natureza (natureza dos materiais) deve ser respeitada

5. Desenho arquitetônico simples e não monótono
Nos últimos cinco anos, a minha linguagem arquitetônica tem evoluído muito e isso me permite deixar as casas muito mais interessantes. O objetivo global é obter alguns espaços e formas simples, mas que mudem constantemente, à medida que se movem seus ocupantes (dentro da casa e em torno dela). Assim, as casas têm sempre reservada uma surpresa para os moradores, uma vez que eles podem encontrar um jogo de formas diferentes, dependendo do ponto de vista. As casas não devem aborrecer e sim convidar os ocupantes para que desfrutem dela.

6. Cores adequadas
As cores (radiação solar polarizada) têm enorme importância na saúde e bem-estar dos indivíduos. Portanto, as nossas casas deveriam parar de adotar a monotonia do branco nas paredes e tetos e os monótonos azulejos de banheiros e cozinhas. As cores e os materiais utilizados devem ser escolhidos com muito cuidado. Isto nos fará muito mais felizes em cada momento da nossa existência.

7. Sensação de segurança e intimidade
Cada dia esse ponto se faz mais importante para alcançar nossa felicidade, porque cada dia temos mais ataques à nossa privacidade e à nossa segurança. Nas aldeias rurais se alcançou um equilíbrio entre liberdade-privacidade e liberdade-segurança, mas nas cidades, muitas vezes, ganha-se a liberdade e a privacidade em troca de não ter vida social (não queremos que ninguém interfira em nossas vidas) e não ter segurança (o nosso vizinho não está interessado). Como resultado, temos uma felicidade perdida. Bem, já algum tempo tenho conseguido fazer um tipo de habitação em que seus ocupantes podem desfrutar plenamente da natureza e podem se sentir muito seguros. Tudo isto faz com que meus clientes atinjam o equilíbrio desejado e o ambiente certo para alcançar a felicidade.

8. Variabilidade térmica sazonal
A nossa sociedade de novos-ricos nos torna cada vez mais longe dos ciclos vitais da natureza. Saímos das nossas casas com ar condicionado para entrarmos em um carro com ar condicionado, ir ao trabalho com ar condicionado, comer num restaurante com ar condicionado e ir ao cinema com ar condicionado… Resumindo, chegamos em casa à noite sem saber que dia tem feito (o homem do tempo precisa nos dizer). Este modo de vida ridículo é responsável por grande parte do nosso mal-estar porque cada vez mais toleramos menos as variações térmicas naturais, nos tornamos mais irritados, prejudicando gravemente a nossa felicidade. Por isso recomenda-se viver numa casa bioclimática. Uma casa bioclimática nos mantém frescos no verão sem prejudicar a nossa saúde e quente no inverno (sem calefações caras e com pouca energia consumida) de uma forma natural. Ao sair da casa, nós podemos simplesmente remover o vestuário ou colocá-lo. Devemos notar algo frio no inverno e calor no verão para nos sentirmos ligados à natureza. Então seremos mais felizes (e teremos economizado 90% dos custos).

9. Manutenção mínima
Estou bem ciente de que uma casa está a serviço do homem e os homens devem apreciá-la. Por isso, é importante que se tenha alguma cumplicidade nas tarefas de limpeza, cuidados com o jardim, pequenas reparações, nada mais que isso. Algumas casas têm tanta tecnologia experimental que mantêm seus ocupantes em um estado de semi-escravidão
ou simplesmente não funcionam (todas as casas domóticas fazem isso e ironicamente vendem essa tecnologia de automação com a desculpa de dar liberdade). É importante utilizar materiais sem manutenção (esqueçamos de
uma vez os vernizes nas madeiras), reduzir a quantidade de tecnologia nas nossas casas e estudar cuidadosamente sua concepção e design. Desta forma, seremos mais livres e felizes.

Posso assegurar que cumprir todos os pontos acima é uma tarefa simples desde que se tenha os conhecimentos adequados, e, naturalmente, vontade de fazer. Se a sua escolha for correta, você terá uma maravilhosa
caixa ressonante que irá gerar pensamentos positivos que permitirão a você conseguir aquilo que quer na vida e ser feliz.

O QUE É A SUSTENTABILIDADE?

CONCEITO DE SUSTENTABILIDADE

A primeira definição de desenvolvimento sustentável foi cunhada pelo Brundtland Report, em 1987, afirmando que desenvolvimento sustentável é aquele que atende às necessidades do presente, sem comprometer o atendimento às necessidades das gerações futuras. Nas décadas seguintes, grandes conferências mundiais foram realizadas, como a Rio’92, no Rio de
Janeiro, em 1992, e a Rio+10, em Johannesburgo, em 2002. Nessas reuniões, protocolos internacionais foram firmados a fim de rever as metas e elaborar mecanismos para o desenvolvimento sustentável. O desafio global de melhorar o nível de consumo da população mais pobre e diminuir a pegada ecológica e o impacto ambiental dos assentamentos humanos no planeta foi o grande tema em debate. No final da década de 1980 e início da década de 1990, as questões de sustentabilidade chegaram à agenda da arquitetura e do urbanismo de forma incisiva, trazendo novos paradigmas.

CENÁRIO DA CONSTRUÇÃO CIVIL E CONCEITO DE CONSTRUÇÃO SUSTENTÁVEL

As cidades e seu metabolismo são as grandes responsáveis pelo consumo de materiais, água e energia, sendo assim razoável pensar que,em um futuro próximo, continuarão a produzir grande impactos negativos sobre o meio natural. Muitos destes impactos negativos são gerados pelo setor da construção civil, que responde por 40% do consumo mundial de energia e por 16% da água utilizada no mundo. De acordo com dados do Worldwatch Institute, a construção de edifícios consome 40% das pedras e areia utilizados no mundo por ano, além de ser responsável por 25% da extração de madeira anualmente. É natural que a sustentabilidade assuma, gradualmente, uma posição de cada vez mais importância neste cenário.

O conceito de Construção Sustentável baseia-se no desenvolvimento de modelos que permitam à construção civil enfrentar e propor soluções aos principais problemas ambientais de nossa época, sem renunciar à moderna tecnologia e a criação de edificações que atendam às necessidades de seus usuários.

CONSIDERAÇÕES SOBRE CONTRUÇÕES SUSTENTÁVEIS

Segundo o arquiteto Jaime Lerner*, há 3 questões fundamentais para o desenvolvimento futuro das cidades:
1.Mobilidade

2.Sustentabilidade e

3.Sociodiversidade.

*Jaime Lerner é referência mundial em planejamento urbano, três vezes prefeito de Curitiba, duas vezes governador do Paraná e presidente emérito do UIA (União Internacional dos Arquitetos).

Existe muita discussão acerca dos conceitos da construção sustentável. Primeiro que não é correto afirmar simplesmente que uma obra é ou não sustentável. A caracterização da sustentabilidade de uma construção vem do processo na qual esta foi projetada, executada e na somatória das técnicas usadas em relação ao entorno e lugar. Assim, é possível afirmar comparando com outro projeto que uma construção é mais sustentável que a outra. Pensar em um edifício isolado não faz sentido quando tratamos de questões ambientais como a sustentabilidade dos espaços construídos pelo homem. Por ser sistêmica, a construção para ser sustentável deve ser elaborado em um contexto, o externo é tão importante quanto o que ocorre nas dependências internas. Por isso, a comparação é a melhor forma de avaliar uma construção sustentável, a obra nunca está sozinha. Se um edifício cumprir todos os pré-requisitos técnicos, respeitar todas as normas éticas ambientais, apenas usar materiais adequados e mesmo assim se fechar para dentro, não condizendo com as necessidades do entorno, não se relacionando com o lugar no qual está inserido, abstraindo as outras construções e pessoas que convivem próximas, mesmo assim não estará sendo sustentável.
Portanto, fica clara a importância da interatividade entre as diversas esferas da vida em sociedade para que possamos construir (e viver) de maneira sustentável.

E é com essa preocupação que procuramos elaborar nossos projetos, um pouco menos interessados com o tipo de tecnologia e equipamentos que a edificação irá receber, e mais atentos à uma visão holística, em que a redução do impacto causado por essa edificação está igualmente equacionada com as questões socioculturais particulares daquele sítio.
Pois como introduzido no breve texto acima, viver de maneira sustentável não significa nos fecharmos dentro de uma realidade que criamos conforme nossas próprias verdades. Mas sim, a partir da realidade sociocultural já estabelecida, procurar agir de maneira altruísta.

 

Paulo Trigo

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