TETO - Arquitetura Sustentável

32 ideias e atitudes para uma vida sustentável

 

Texto Marilena Dêgelo (colaborou Julia Benvenuto) Repórter de imagem Nuria Uliana Fotos Marcelo Magnani

A separação do lixo reciclável em casa e o abandono do uso de sacolas plásticas descartáveis no supermercado são as primeiras, mas não as únicas, medidas de consciência ecológica. Existem muitas iniciativas simples, e de baixo custo, na construção, na decoração e no paisagismo, que contribuem para a preservação do meio ambiente

Fotos Marcelo Magnani

Respeito à natureza e ser feliz com o que se tem


Contra o desperdício e o consumo desenfreado, a artista plástica Isabelle Tuchband preserva as peças antigas, herdadas da família e compradas em viagens. “Tenho boas recordações quando olho para elas e isso me faz feliz”, afirma. No jardim de sua casa, a mesa de ferro, dos anos 1950, que sua sogra trouxe de Nova York, está sempre posta para um chá com vasos de flores embaixo da centenária sibipiruna, preservada no terreno. “Esta árvore protege minha casa e dá boas energias”, diz Isabelle. Os assentos das cadeiras de ferro têm almofadas com tecidos naturais, algodão e linho, da Tecelagem Francesa, confeccionadas por Rita Tapeceira. “Restauro e mudo de lugar os móveis, valorizando o que tenho. Ser ecológico é ter esta consciência: fazer o máximo com o que se tem por perto”, afirma ela. Ao fundo, pintura de sua autoria.

1- Há um movimento mundial pelo reuso do que temos em casa ou do que é descartado por empresas ou outras pessoas. Assim, um móvel que não serve mais para os pais pode ser útil na casa do filho. Com um novo olhar sobre os objetos, é possível descobrir outros. Basta uma pintura ou um tecido novo para as peças ganharem destaque na decô.

2 – O improviso é bacana. As caixas de frutas e legumes, jogadas no lixo de entrepostos e supermercados, podem ser empilhadas e virar uma estante para guardar livros. Há anos na Europa, os paletes de madeira, usados para o transporte de máquinas e eletrodomésticos, são aproveitados na produção de mobiliário e pisos. A ideia já tem vários adeptos no Brasil.

3 – Um freio no consumismo. Outro movimento que ganha força entre arquitetos e designers é o low-tech, em oposição ao high-tech. Nada de trocar a geladeira ou outro eletro em uso somente porque lançaram um modelo novo. Se não tem um, vale pegar os aparelhos que estão velhos para outras pessoas, mas ainda funcionam. Mas fique de olho: se for muito antigo, pode consumir energia demais. Melhor usar como armário ou bar na sala. Dá um ar vintage ou retrô ao ambiente.

4 – Reaproveite embalagens. Caixas de papelão, latas de chá e de leite em pó e vidros de geleia esvaziados podem ser muito úteis. Para organizar fotos ou peças de roupa pequenas no quarto, use as caixas forradas com tecido ou papel. No escritório, as latas pintadas ou revestidas servem de porta-lápis ou porta-treco. Os vidros viram vasinhos para decorar as mesas nas festas. Até uma lata grande de tinta tem potencial para ser um banco com assento estofado.

5 – Do tempo da vovó. Nada aquece mais a alma e o corpo do que uma boa manta de patchwork feita com retalhos de tecidos até mesmo aproveitados de roupas em desuso. Além de cobrir o sofá ou a cama, podem ser adaptadas como belas cortinas ou revestir paredes. Vale fazer o mesmo com restos de tapetes. Mesmo de estilos e cores diferentes, rendem um moderno modelo.

 

Fotos Marcelo Magnani

Para jogar pingue-pongue ou fazer as refeições


No mundo contemporâneo, os móveis flexíveis ou com dupla função são as melhores alternativas para as casas e os apartamentos com espaços cada vez mais reduzidos. Nesta casa onde moram três amigos no bairro do Pacaembu, em São Paulo, a metade da mesa de pingue-pongue é usada na sala de jantar. Encostada na parede, tem lugar para as quatro cadeiras compradas em lojas de usados. As de madeira revestida de Formica vermelha e com pés palito são dos anos 1950. As giratórias e estofadas com corino azul- -turquesa e friso dourado têm design dos anos 1970. A outra metade fica na cozinha e é colocada junto desta quando dá vontade de jogar ou para receber mais pessoas em torno da mesa. Garrafas e vaso da loja Teo. Quadro com fotos de Felipe Morozini.

6 – Na falta de móveis herdados de família, recorra a lojas de usados ou entidades beneficentes que recebem doações. Lá dá para comprar peças de época, com design clássico e moderno, a bons preços. Alguns desses locais oferecem o serviço de restauro. Mas também é interessante usar móveis detonados, com a marca do passado e de sua história.

7 – Existe um teste chamado pegada ecológica no site da WWF (www.wwf.org.br) que determina se a pessoa é consciente pela quantidade de metros quadrados que ela utiliza para morar. Leva em conta que se cada um habitar uma grande casa, não haverá lugar para todos no planeta. “De acordo com essa premissa, um espaço multiuso é uma atitude sustentável”, segundo o arquiteto Gustavo Calazans.

8 – Compre a produção local. De modo geral, as verduras e as frutas disponíveis nos supermercados viajam longas distâncias até chegar a seu destino final. Imagine a emissão de gás carbônico decorrente dessas longas travessias. Em relação aos produtos importados, prefira os transportados por navio, que causa cinco vezes menos impacto na emissão de poluentes em comparação ao frete rodoviário. Logo, ir à feira é uma atitude sustentável.

9 – Na reforma de apartamentos, a demolição de paredes para eliminar o excesso de cômodos integra os ambientes. Além da amplitude, isso melhora a circulação de ar, o que deixa o clima mais fresco no verão, e proporciona maior insolação, aquecendo os ambientes no inverno. “Assim não é necessário instalar sistemas de aquecimento ou de ar-condicionado, minimizando o consumo energético”, diz Calazans.

10 – Em grandes cidades, como São Paulo, os centros têm prédios de apartamentos antigos, incríveis e históricos, abandonados por falta de interesse imobiliário. Para um desenvolvimento urbano sustentável, arquitetos defendem a realização do retrofit nesses edifícios para que voltem a ser habitados em vez de se continuar a construir novos prédios. O princípio do retrofit é restaurar as fachadas e adequar os espaços internos às necessidades atuais, como nova instalação elétrica e hidráulica e acesso à internet.

 

Fotos Marcelo Magnani

Bancada de trabalho vira aparador no quarto


Em um canto de seu quarto, o designer de produtos e diretor de arte Ilan Wainstein colocou a bancada de trabalho descartada por um artista plástico. “Está toda manchada de tinta, mas funciona bem aqui”, diz ele sobre o móvel de madeira maciça que mede 1,70 m x 0,75 m x 0,50 m. “Era mais alta. Serrei 20 cm dos pés para ficar na proporção certa”, afirma Ilan. Em cima da bancada, ele expõe os perfumes na bandeja de prata, que herdou da avó. Embaixo, ficam o som e livros. O quadro é uma montagem com a capa de um livro e um porta-retrato antigo. Na parede, IIan pendurou o cabide com camiseta dos anos 1980 comprada em brechó.
Sobras de tapetes orientais resultaram no patchwork, da Século, que cobre tacos. Cadeira de Philippe Starck.

11 – Em reforma, o reaproveitamento de revestimentos evita a geração de entulhos, que precisam de caçamba para ser removidos, encarecendo a obra. Muitas vezes, esses resíduos são lançados em rios e córregos da cidade, o que causa enchentes. Por isso, o ideal é restaurar os tacos, que costumam ser de madeira nobre. É melhor do que comprar um assoalho, cuja origem pode ser de florestas devastadas ilegalmente. No caso dos azulejos e pisos cerâmicos, em vez de removê-los, aplique em cima um novo acabamento.

12 – Os móveis de madeira maciça e nobre estão virando artigos de luxo ou de antiquário. A marcenaria caminha para o uso apenas de matéria-prima feita de compostos madeirados, tipo MDF, na fabricação de mobiliário, que será apenas revestido com folhas das madeiras nobres.

13 – Mesmo o tronco de árvore derrubada por tempestade pode ter melhor aproveitamento do que virar somente a base de uma mesa. “Recortado em pranchas ou ripas, rende muitos móveis, projetados com o dimensionamento mais adequado da madeira”, na opinião dos arquitetos Marcelo Ferraz e Francisco Fanucchi, da Marcenaria Baraúna.

14 – Há uma retomada pelos revestimentos simples, como piso de cimento e de ladrilhos hidráulicos, que são materiais de baixo impacto ambiental. Não consomem energia na produção, porque não são queimados em fornos. “O melhor cimento é o CP III, que emite menos poluentes porque é feito 70% de resíduos de siderúrgicas”, diz a arquiteta Adriana Yazbek. Outras opções sustentáveis são os pisos de bambu e de madeira de origem certificada.

15 – As grandes janelas ou panos de vidro, fechando os vãos entre os pilares da estrutura das construções, garantem a entrada de grande quantidade de luz natural nos interiores, dispensando acender lâmpadas durante o dia. Para iluminar o centro da casa, a solução está nas claraboias.

16 – Para a iluminação artificial, existem as lâmpadas de baixo consumo de energia elétrica, como as fluorescentes. Atualmente, há modelos que emitem luz de tom amarelado, mais aconchegante para salas e quartos. Outra opção é a luz de led, que consome dez vezes menos energia do que, por exemplo, as lâmpadas dicroicas.

 

Fotos Marcelo Magnani

Cores alegres e materiais menos poluentes


O patchwork de ladrilhos hidráulicos e o acabamento de cimento queimado refletem a preocupação com o uso de produtos sustentáveis na reforma do banheiro de casal, feita pela arquiteta Adriana Yazbek para a prima dela, Ana Paula, e o marido, Marcos Santos Mourão. “Eles pediram que fosse bem colorido. Fui à fábrica Dalle Piagge e escolhi entre as sobras de ladrilhos os mais alegres”, diz a arquiteta, que cobriu a bancada com as peças. “Montei o patchwork no chão da fábrica e comprei apenas os ladrilhos que iria usar para não ter desperdício.” Do mesmo local, são as massas de cimento natural, que reveste as paredes, e colorido de azul para o piso. Na aplicação, usou mão de obra da Delta Plan Engenharia. Toalha da Mundo do Enxoval.


17 – A ventilação cruzada
nos ambientes evita o uso de aparelho de ar-condicionado. Para obtê-la, é necessário ter janelas em paredes opostas, de preferência uma em frente à outra. O modelo basculante é útil porque pode ficar aberto mesmo nos dias de chuva.

18 – Nos últimos anos, a produção de placas de captação de energia solar cresceu 19% no Brasil, segundo a Abrava, Associação Brasileira de Refrigeração, Ar-condicionado, Ventilação
e Aquecimento. Isso levou à redução do preço
do produto. Na Soletrol, um sistema de aquecimento solar para quatro banhos diários custa
R$ 1.400 e representa economia de 2 mil kW/h no consumo de energia elétrica por ano. Estima-se que haja 250 mil aquecedores solares instalados em lares brasileiros.

19 – Quem mora em casa pode instalar um sistema de captação de água de chuva por calhas e tubulações para ser armazenada em caixa com tampa ou cisterna enterrada no terreno. Sem tratamento, o líquido é canalizado para as caixas de descargas no banheiro e para as torneiras da área externa usadas na irrigação do jardim. Há kits pré-montados com reservatório – de 100 a 300 litros de capacidade – à venda nas lojas de material de construção.

20 – Cada um pode contribuir para aumentar as áreas com vegetação na cidade. Na construção ou reforma da casa, o telhado tradicional pode ser substituído pelo teto verde. Empresas especializadas, como a Ecotelhado, fazem a instalação das coberturas com terra, grama, sistemas de irrigação e drenagem em lajes. Além de melhorar o clima na cidade, deixa agradável a temperatura nos ambientes.

21 – Os aparelhos eletrônicos, como TV e carregadores de celulares, não devem ficar o tempo todo plugados nas tomadas porque consomem energia mesmo quando não estão sendo usados. Para economizar eletricidade, dispense os acessórios de cozinha de pouca utilidade no dia a dia, como facas elétricas e processadores de alimentos.

22 – Não precisa morar em casa para cultivar plantas. Em apartamento, dá para ter espécies em um painel na parede, como os criados pela paisagista Gica Mesiara, da Quadro Vivo. “Estudos mostram que áreas de 12 m² com plantas já influenciam no microclima: atraem pássaros, diminuem o calor em até 4ºC, melhoram a oxigenação do ar e reduzem a poluição sonora”, diz ela.

23 – Há diversas tecnologias modernas de adubação e de aplicação de defensivos orgânicos para proteger as plantas, oferecidas por empresas como a EcoJardim. Na irrigação, os equipamentos garantem a utilização racional da água, em benefício da preservação dos recursos naturais do planeta.

24 – As calçadas devem ser drenantes para que a água de chuva retorne aos mananciais. Para isso, deve-se evitar a aplicação de massa de cimento e de cerâmica entre os canteiros do jardim. O melhor caminho é espalhar pedriscos ou pôr pedras sobre uma base de areia diretamente no solo. Outra opção é colocar dormentes, descartados por estradas de ferro, ou cruzetas de postes antigos de eletricidade.

 

Fotos Marcelo Magnani

Humor aplicado em peças do cotidiano renovadas


As instalações, que o fotógrafo e artista plástico Felipe Morozini cria para eventos com peças de lojas de usados, acabam em seu apartamento, no centro de São Paulo. “Dou utilidade a móveis antigos sempre pensando em levar bom humor à decoração”, afirma Morozini, que vende algumas criações na Micasa. “Tenho a questão ecológica como pensamento de vida. Procuro produzir em cima do que existe”, diz. Para um evento de moda, ele pintou a mesa com a estampa pied-de-poule e a máquina de costura com a cor da roupa presa nela. Também customizou o relógio cuco. O cão com flores artificiais é da China. Quadro com cabeças de coração de Yuri Pinheiro.

25 –Escolha os vasos de materiais naturais, como barro, cerâmica e madeira. São mais duráveis e menos ofensivos ao meio ambiente do que os feitos de compostos plásticos.

26 – Prefira espécies nacionais. As plantas nativas já são adaptadas às condições climáticas do país. Além de exigir menos cuidados, cultivá-las contribui para a preservação da flora brasileira. Algumas sugestões de árvores: jatobá, pitangueira, jabuticabeira, ipê, uvaia e cupuaçu.

27 – Não tem coisa melhor do que comer hortaliças e legumes da própria horta. A principal vantagem é que os alimentos ficam livres de agrotóxicos. Para ter uma em casa, siga as instruções: as plantas de raízes são cultivadas em vasos ou canteiros de 20 cm de profundidade. Já as folhas, mais a abobrinha e o tomate precisam apenas de 15 cm.

28 – Assim como o lixo reciclável, os resíduos orgânicos podem ser aproveitados. Com a técnica da compostagem, dá para produzir adubo orgânico em casa para o canteiro de ervas. Separe cascas de frutas e legumes em um recipiente com tampa (não coloque grãos ou restos de comida, que causam mau cheiro e propagam insetos). Por cima, coloque
uma camada fina de serragem. Depois de cheio, deixe apurar por quatro meses, longe de lugares úmidos.

29 – Evite combater as pragas do jardim com fumo, que não é ecológico.
A agrônoma Marília Lima sugere outra receita caseira: bata no liquidificador 100 g de alho e a mesma quantidade de pimenta-do-reino. Ponha a mistura em garrafa escura com 1 litro de álcool e deixe curtir por
sete dias. Dilua 100 ml a cada 10 litros de água com uma colher de chá de detergente neutro. Pulverize na planta.

30 – Mesmo nas metrópoles, é possível receber a visita de pássaros. Para atraí-los, basta colocar um comedouro com frutas frescas, alpiste e sementes de girassol na varanda ou no terraço. Árvores como a amoreira ou a flor de hibisco causam o mesmo efeito. Lembre-se também de trocar a água todos os dias e jamais acrescente açúcar ou mel.

31 – Já existem vários materiais de construção fabricados com lixo reciclado.
O mais conhecido é a telha ondulada da Ecotop. A peça é produzida a partir da moagem e prensagem de tubos de creme dental, que são compostos de alumínio e plástico. São mais duráveis e resistentes do que a de outros materiais, além de reduzirem o volume de detritos lançados em aterros sanitários.

32 – A decoração pode agredir menos a natureza. Há muitas opções de tecidos naturais, como algodão, linho e seda, para confeccionar cortinas e revestir estofados. Na pintura da casa, podem ser usadas as tintas ecológicas à base de terra, como as da marca Solum, que possui uma cartela de 15 cores. Ou, ainda, vale recorrer à velha e boa pintura com cal.

 

Acredito que as atitudes compiladas acima são realmente importantes e aplicáveis. Algumas, como dar preferência para comprar verduras de produtores locais, ou utilizar espécies nativas no paisagismo chegam a ser óbvias, mas muitas vezes nos esquecemos de fazer. Outras, como reutilizar móveis antigos ou peças de demolição, são exemplos de como com criatividade é possível economizar e obter ótimos resultados na decoração. Aqui no escritório várias dessas atitudes foram aplicadas durante a reforma, e mesmo no cotidiano, como a compostagem das folhas e restos de alimentos para utilizar como adubo orgânico, diminuindo a geração de resíduos e cooperando para um paisagismo ainda mais verde!

Arquiteto Paulo Trigo

Artigo original:  http://revistacasaejardim.globo.com/Revista/Common/0,,EMI215524-16940,00.html

Isay Weinfeld fala sobre o envolvimento entre arquiteto e cliente

Apesar da fama e dedicação intensa à profissão, Isay Weinfeld diz que a arquitetura tem importância relativa em sua vida
De tudo, um pouco: sem fórmulas prontas, Isay Weinfeld está sempre em busca de projetos que o desafiem – o que justifica um currículo diversificado com programas que vão de discoteca a hotéis e livrarias, passando pelas residências. Diversidade que também extrapola a arquitetura, e permite que seu talento esteja registrado no cinema, na cenografia e em exposições

Enveredou-se também pela cenografia e assinou exposições na capital paulista. Mas é na arquitetura que hoje se expressa com mais frequência, e busca cotidianamente seus desafios e sua felicidade. Sim, porque como Isay mesmo diz, “estou aqui, momentaneamente nessa vida, como todos nós estamos, para tentar ser feliz”. E é o que tenta fazer com seu trabalho: tirar a sisudez característica de uma arquitetura que se pretende ser importante, e oferecer um pouco de humor e surpresa a quem habita seus projetos. Não um humor sinônimo de sorriso escrachado, “mas o riso que provoca reflexão”, adverte.

 

 

Como é o processo de concepção de projeto em seu escritório? Você está presente em todos os projetos?

Não pego trabalho para outras pessoas fazerem. Aceito o trabalho porque tenho prazer em fazer e porque as pessoas estão querendo que eu faça. Então, nada mais natural do que eu atender essas pessoas. Faço o projeto com minha equipe, evidentemente, mas é assim que começa e segue. Por isso, também, não posso pegar muitos projetos. Esse é o escritório que quero.

É comum haver escolha de clientes? Como unir a arquitetura que se quer fazer com a arquitetura que o cliente quer -principalmente em início de carreira?

Aí são duas coisas diferentes. Você vai se formando. A arquitetura é uma profissão que demora muito para pegar no tranco e a maturidade é muito importante. É uma profissão que você precisa realmente de muito tempo de trabalho – e isso não quer dizer que você vá exercer melhor o seu ofício -, mas irá dominar seus instrumentos de trabalho. Claro que o jeito de lidar com a seleção de clientes é diferente de quando se começa. Mas o escritório já tem um jeito de ver as coisas, e as pessoas que chegam aqui procuram esse jeito de ver. Têm afinidades com essa maneira de ver o mundo e principalmente com meus valores. Acho que isso talvez venha muito antes do gosto ou da capacidade criativa ou de qualquer outra coisa: as afinidades éticas mais do que as estéticas. Assim não há antagonismo entre o que quero fazer e o que cliente quer. A escolha é natural. Pode ser que haja uma seleção de projetos, não tenho porque negar. Mas não é por arrogância ou prepotência. É por honestidade, não tenho dúvidas. Pego um trabalho para que possa ter prazer, e para que possa dar prazer ao cliente. Não tem outro motivo que faça com que eu aceite um trabalho. E, claro, se eu acho que tenho condições de resolver o problema dele. Porque quando acho que não é para mim, que não vou saber fazer, não pego. Há várias razões que me fazem não pegar um trabalho. A primeira é isso: o jeito de ver a vida. Não é uma bobagem, é óbvio.

Até porque é um relacionamento…

De três anos em uma casa. Não é brincadeira. Não há dinheiro no mundo que me pague para fazer isso. Tenho de estar a fim de fazer, procuro aqui o meu prazer diário. Meu, do cliente e da equipe, penso muito em todo mundo, em trazer alguma coisa que dê prazer a todos nós aqui no escritório. Às vezes também é o tema, não gosto de me repetir, de fazer coisas que já fiz. Não tenho vontade. E se não tenho vontade vai ser ruim para o cliente ter um arquiteto por três anos sem vontade de fazer. Não tem sentido. São três anos de vida, isso não é pouca coisa.

Eu quero fazer a casa que tenha a cara do cliente, mas  vista através do meu olhar. Isso está ligado ao respeito que tenho por quem me procura para fazer um trabalho.

 

Veja a entrevista completa no site da AU:

http://www.revistaau.com.br/arquitetura-urbanismo/209/flerte-com-os-prazeres-226526-1.asp

As cidades como casas. As casas como cidades. (Vilanova Artigas)

Para Alvaro Puntoni, a arquitetura habitacional deve ser pensada de forma integrada à cidade para gerar espaços urbanos de qualidade

As cidades são feitas de casas.

A cidade é constituída majoritariamente por uma arquitetura habitual, entremeada por objetos não ordinários sobre uma base infraestrutural. É essa arquitetura dos espaços da vida, do cotidiano, aquela que não é extraordinária, que configura e conforma os espaços da vivência.

Como arquitetos, acabamos relevando mais os equipamentos e a infraestrutura, por sua excepcionalidade ou singularidade, negligenciando por vezes o desenho da casa. O projeto de cada habitação é um elemento que se insere em um contexto mais amplo. Cada casa, por menor que seja, é parte do todo e, por isso, capaz de modificá-lo.

É notável como a arquitetura cotidiana e anônima é – em média – de qualidade superior nas grandes cidades sul-americanas, em comparação com as brasileiras. Talvez isso ocorra em função de normas e legislações mais inteligentes e coerentes, que privilegiam um desenho urbano prévio, o qual praticamente inexiste em nosso caso.

Talvez, também, em função da forma pela qual se organiza a profissão do arquiteto e a valorização do projeto que esses profissionais qualificam, o processo de educação e as escolas de arquiteturas nesses países.

Ou talvez, ainda, pela constatação de que há de fato a construção de um gosto, a necessidade de busca de um prazer estético que, em nosso caso, muitas vezes pode ser questionado, como bem exemplifica a onda de neoclássico que nos assolou na última década e seu assombroso sucesso mercadológico.

No âmbito dos espaços internos da habitação, o que vemos por aqui é uma insistência na reprodução ad nauseam da casa burguesa (ou da casa grande) em áreas diminutas e, em função de um preconceito de partida, não nos permitimos experimentar ou ensaiar novas formas de viver. Por que não admitir espaços de asseio que assimilem a famigerada área de serviço, desconectando-a da cozinha (resquícios de um passado escravista e, depois, de uma sociedade que oprimiu a mulher)? Ou repensar a exagerada presença de áreas de banho multiplicadas pelo número de dormitórios, acrescidas ainda de um banheiro social que remonta às casas bandeiristas, nas quais o visitante ficava do lado de fora ou apartado da família? Ou rever ou diminuir a excessiva compartimentação dos espaços que separam a vida, mesmo dentro do universo familiar?

 

 

 

Sabemos que a casa deve admitir as atividades de quem mora e, desta forma, conformar-se continuamente com a vida deste habitante. Mas não pode olvidar do seu compromisso coletivo com o todo e com os demais. Tem de ser parte integrante da cidade. A casa contemporânea, cada vez mais, deve envolver os espaços abertos do viver no mundo. Não podemos pensar somente em uma casa que se fecha, mas devemos crer em uma casa que se abre. A casa deve – e pode – construir a cidade que imaginamos e o mundo em que vivemos e ainda viveremos.

A casa deve fazer as cidades que desejamos.

 

Trecho transcrito da Revista AU – 208 (julho 2011)

Artigo original:

http://www.revistaau.com.br/arquitetura-urbanismo/208/artigo224378-1.asp

Copenhagen – a cidade das bicicletas

A relação dos moradores de Copenhagen com as bicicletas mostra como podemos aprender com seu exemplo e aplicá-lo às cidades brasileiras.

Obviamente, temos desafios enormes pela frente, para adequar nossas vias e educar nossos motoristas. Mas é exatamente esse o principal obstáculo: A MUDANÇA DA CULTURA DO AUTOMÓVEL.

Antes de começarmos a criticar a idéia de fazer alguns dos nossos trajetos diários com esse fabuloso meio de transporte devemos nos questionar:

Eu respeito os ciclistas?

Tenho vergonha de usar minha bicicleta como meio de transporte e não apenas para o lazer?

Durante uma viagem didática com a faculdade de arquitetura de Paris, tivemos a oportunidade de passar uma semana nessa incrível cidade, e conhecer de perto sua realidade e a saudável relação entre automóveis e biciletas. Copenhagen atingiu um nível de respeito e consciência de vida em sociedade realmente louvável. Isso pôde ser constatado não somente ao transitarmos pedalando pela cidade, mas também, e principalmente, ao visitarmos seus conjuntos de habitação coletiva. Aquelas pessoas conseguem viver harmoniosamente em comunidade de uma maneira que impressionou mesmo aos franceses, um povo bem acostumado com esse tipo de habitação.

Mas voltando ao assunto das bicicletas, Copenhagen inaugurou o movimento mundial Cycle Chic – de gente que pedala arrumadinha. A ideia é: “esse é o meu meio de transporte, então vou utilizá-lo com minha roupa de trabalho mesmo”. Daí que mulheres com vestidos e saltos enormes e homens de terno e gravata pedalam em direção ao escritório todos os dias. Também pudemos perceber esse tipo de consciência ao nos depararmos com os ciclistas nas ruas.

 

 

 

 

E a prefeitura faz questão de garantir que continue sendo assim. Não só porque as pessoas ficam mais felizes pedalando, mas porque é economicamente melhor para a cidade. Um carro emite poluentes (o que causa danos de saúde pública), gera mais acidentes e precisa de uma manutenção mais cara na infraestrutura. As ciclovias, por outro lado, são mais baratas, atraem mais turistas, fazem com que as pessoas se exercitem e fiquem mais saudáveis diminuindo os gastos com saúde pública. A prefeitura colocou todas essas variáveis em uma equação e concluiu que, a cada quilômetro pedalado, a cidade GANHA o equivalente a R$ 0,40, enquanto que a cada quilômetro percorrido por um carro, a cidade PERDE R$ 0,20.

Guardemos as diferenças entre a realidade de vida na Dinamarca e no Brasil, Copenhagen com seus 1,2 milhão de habitantes e São Paulo com 12 milhões. Mas será que não conseguimos substituir alguns trechos dos nossos deslocamentos diários utilizando uma bicicleta? Conversar com os administradores de comércio e condomínios que frequentamos para ver a possibilidade de disponibilização de bicicletários já seria um bom começo.

 

¿Cuál es la arquitectura del futuro?

Confira o vídeo no link abaixo.

Cinco personalidades em urbanismo e arquitetura contemporâneos analisam a atual vida em sociedade e respondem à pergunta:

¿Cuál es la arquitectura del futuro?

Nas respostas, uma unanimidade: A arquitetura do futuro é sustentável. Felizmente, um caminho sem volta.

 

MAD Architects : Urban Forest


 

 

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